1º Fichamento – BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. “Introdução: Modernidade – ontem, hoje, amanhã” (p. 24 – 49). São Paulo, Companhia das Letras, 2007.
Na introdução ao livro “Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade”, entitulada “Modernidade – ontem, hoje, amanhã”, Marshal Berman nos diz que “existe um tipo de experiência vital compartilhada por homens e mulheres em todo o mundo, hoje” a qual ele chama de Modernidade. E prossegue: “ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento (...) – mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos”. A modernidade anula todas as fronteiras geográficas e raciais, une a espécie humana. Porém, nos despeja num turbilhão de desintegração, de luta e de contradição.
As pessoas sentem-se como as primeiras, e talvez as últimas, a passar por isso. Embora possam entender a modernidade como uma ameaça a sua história e tradições, a modernidade desenvolveu uma história e tradições próprias.
O turbilhão da vida moderna tem sido alimentado, diz o autor, por grandes descobertas nas ciências físicas, pela industrialização da produção, que acelera o ritmo de vida, por explosões demográficas, pelo crescimento urbano, pelos sistemas de comunicação de massa, por Estados nacionais cada vez mais poderosos, que lutam para expandir seu poder e por um mercado capitalista mundial drasticamente flutuante. Esses processos compõem a “modernização”.
O autor divide a modernidade em três fases: do início do século XVI até o fim do século XVIII, onde as pessoas começam a experimentar a vida moderna (as pessoas tateiam, segundo o autor, em estado de semicegueira); a segunda começa com a onda Revolucionária de 1790, onde um grande e moderno público toma vida, que, no entanto, não vive uma modernidade completa, vivendo numa constante dicotomia entre o antigo e o novo; e a terceira, no século XX, cuja modernização abarca virtualmente o mundo todo mas que, à medida em que se expande, se multiplica em fragmentos (nessa terceira fase, a modernidade perde sua nitidez).
Então, o autor vai citar Jean-Jacques Rousseau como a grande voz moderna da primeira fase. “Ele é a matriz de algumas das (...) tradições modernas”. Vai, então, exemplificar com a romântica novela A nova Heloísa, onde o jovem herói Saint-Preux realiza um movimento exploratório do campo para a cidade. “Ele experimenta metropolitana como ‘uma permanente colisão de grupos e conluios, um contínuo fluxo e refluxo de opiniões conflitivas. (...) Tudo é absoluto, mas nada é chocante porque todos se acostumam a tudo’”.
Logo, Berman dá um salto de cem anos. Identifica em Nietzsche e Marx as duas vozes que são o símbolo do século XIX. Cita Marx: “A atmosfera sob a qual vivemos pesa várias toneladas sobre cada um de nós – mas vocês o sentem?”. Para ele, um dos principais propósitos de Marx foi fazer o povo sentir, acreditando que, para Marx, o fato básico da vida é que essa vida é radicalmente contraditória na sua base, citando ainda: “Em nossos dias, tudo parece estar impregnado do seu contrário”. Assim, tais misérias e mistérios instilariam desespero na mente dos modernos.
Ainda sobre Marx: “Todas as relações fixas (...) foram banidas: todas as novas relações se tornam antiquadas antes que cheguem a ossificar”. Pelo autor: “O impulso dialético da modernidade se volta ironicamente contra seus primitivos agentes, a burguesia”.
“Para Nietzsche (...), as correntes da história moderna eram irônicas e dialéticas: os ideais cristãos (...) levaram a implodir o próprio cristianismo”. “Amoderna humanidade se vê em meio a uma enorme ausência de valores, mas, ao mesmo tempo, em meio a uma desconcertante abundância de possibilidades” (31-32). Cita Além do bem e do mal para reafirmar que a modernidade é uma “fatídica simultaneidade de primavera e outono”. Assim, as possibilidade, para Marshal, seriam ao mesmo tempo gloriosas e deploráveis, onde todos seríamos uma espécie de caos.
Vai afirmar, na página 33, que Marx e Nietzsche compartilhavam não só o seu ritmo afogueado, sua vibrante energia, sua riqueza imaginativa, mas também sua prontidão em voltar-se contra si mesmos, questionando e negando tudo o que foi dito.
O modernismo do século XIX prosperou e cresceu além de suas próprias esperanças, mas foi o século XX, para o escritor, que talvez tenha sido o mais brilhante e criativo da humanidade. Contudo, é nele também que perdemos a conexão entre nossa cultura e nossas vidas. Se o pensamento com Marx e Nietzsche cresceu e se desenvolveu, “nosso pensamento acerca da modernidade parece ter estagnado ou regredido”.
Vai então defender que os “pensadores do século XIX eram simultaneamente entusiastas e inimigos da vida moderna. (...) Seus sucessores do século XX resvalaram para longe, na direção de rígidas polarizações e totalizações achatadas. A mo¬dernidade ou é vista com um entusiasmo cego e acrítico ou é condenada segundo uma atitude de distanciamento e indiferen¬ça” sendo “sempre concebida como um monólito fechado”.
O autor vai dar voz aos futuristas italianos: “nós afirmamos que o triunfante progresso da ciência torna inevitáveis as transformações da hu¬manidade, (...) cavando um abismo entre aqueles dóceis escravos da tradição e nós, livres modernos”. Diz Berman: “Aí não há ambigüidades: ‘tradição’ (...) se iguala simplesmente a dócil es¬cravidão, e modernidade se iguala a liberdade”. E continua: “Marx e Nietzsche podiam também regozijar-se na moderna des¬truição das estruturas tradicionais; mas eles sabiam bem dós al¬tos custos humanos desse progresso” (36).
“Algumas das mais importan¬tes variedades de sentimentos humanos vão ganhando novas cores à medida que as máquinas vão sendo criadas. Como se lê num texto futurista posterior, ‘nós intentamos a criação de uma espécie não humana, na qual o sofrimento moral, a bonda¬de do coração, a afeição e o amor, esses venenos corrosivos da energia vital, bloqueadores da nossa poderosa eletricidade cor¬pórea, serão abolidos’. Os jovens futuristas lançaram-se naquilo que chamavam de ‘guer¬ra, a única higiene do mundo’, em 1914” (37).
Diz, então, que os futuristas “levaram a celebração da tecnologia moderna a um extremo grotesco e autodestrutivo”. “O problema, como o problema de todos os moder¬nismos na tradição futurista, é que, com esplêndido maquinário e sistemas mecânicos desempenhando os papéis principais (...), resta muito pouco para o homem moderno executar, além de apertar um botão (38).
Contudo, o pólo oposto declara um enfático “Não!” à vida moderna. Vai dizer que no desfecho de A ética protestante e o espírito do capitalismo mo, Weber diz que todo o "poderoso cosmo da moderna ordem econômica" é "um cárcere de ferro". É essa ordem que “determina o destino do homem”. Após, vai dizer que todos os grandes críticos do século XIX compreendem como essa tecnologia condicionam o homem, mas todos criam que o homem moderno saberia combater este mal. Porém, os críticos do século XX careceriam dessa fé nos seus contemporâneos. Weber dirá que estes não passariam de “especialistas sem espírito, sensualistas sem coração”. Palavras do autor: “não só a socie¬dade moderna é um cárcere, como as pessoas que aí vivem fo¬ram moldadas por suas barras”. Somos seres sem ser. Os críticos do “cárcere de ferro” no século XX acreditam que “o cárcere não é uma prisão, apenas fornece a uma raça de inúteis o vazio que eles imploram e de que necessitam” (39).
Para ele, Weber depositaria pouca fé no povo e muito menos nas classes dominantes. “Muitos pensa¬dores do século xx”, dirá, “passaram a ver as coisas deste modo: as mas¬sas pululantes (...) não têm sensibilidade, espiritualidade ou dignidade como as nossas; não é absurdo (...) que esses "homens-massa" (ou "homens ocos") tenham não apenas o direito de governar-se a si mesmos, mas também (...) o poder de nos governar?” (40).
Ainda na página 40, “Mais surpreendente e mais perturbadora é a extensão que essa perspectiva atingiu entre alguns dos democratas participati¬vos da recente Nova Esquerda”. “Tanto Marx como Freud são obsoletos: não só lutas de classes e lutas sociais, mas também conflitos e contradições psicológicos foram abolidos pelo Estado de ‘admi¬nistração total’”.
“Isso veio a ser um refrão familiar no século XX, partilhado por aqueles que amam e por aqueles que odeiam o mundo moderno: a modernidade é constituída por suas máquinas, das quais os ho¬mens e mulheres modernos não passam de reproduções mecânicas” (40-41).
“A volátil atmosfera dos anos 1960 gerou um amplo e vital C01pUS de pensamento e controvérsias sobre o sentido último da modernidade. Muito do que houve de mais interessante nesse pensamento girou em torno da natureza do modernismo. O mo¬dernismo nos anos 1960 pode ser grosseiramente dividido em três tendências (...): afirmativo, negativo e ausente” (45).
Algumas correntes diziam que o modernismo deveria mergulhar em si mesmo e ser uma expressão voltada para dentro. O modernismo, assim, só faria sentido dentro do próprio modernismo. Assim é que na pintura, o único problema relevante diria respeito à planura da superfície. Para Berman, uma atitude assim perante a vida estaria condenada a parecer árida e sem vida em pouquíssimo tempo.
Há também uma visão paralela que diria respeito a um modernismo “interminável, permanente revolução contra a totalidade da existên¬cia moderna: foi ‘uma tradição de destruir a tradição’” (42). Modernismo teria tornado-se palavra sinônimo de revolta.
Para finalizar, diz que “é bem possível que esses primeiros modernistas nos compreendam melhor do que nós nos compreendemos”. É assim que propõe um regresso, na esperança de conseguir olhar com os olhos dos “antigos modernos” para que, assim, possamos nos enxergar melhor. Ou seja, “apropriar-se das modernidades de ontem pode ser, ao inesmo tempo,uma crítica às modernidades de hoje e um ato de fé nas modernidades - e nos homens e mulheres modernos ¬- de amanhã e do dia depois de amanhã”.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
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