segunda-feira, 16 de junho de 2008

CARION, Christia. Feliz Natal (Joyeux Noël). França/Inglaterra/ Alemanha, Sony Pictures, 2005. DVD, 116 min. color. son.

CARION, Christian. Feliz Natal (Joyeux Noël). França/Inglaterra/ Alemanha, Sony Pictures, 2005. DVD, 116 min. color. son.

O filme Feliz Natal está na lista daqueles que filmes que não podemos ver e sair do mesmo jeito que éramos antes. O filme conta com atores da França, da Alemanha, da Inglaterra e da Escócia. Mas o fato que nos permite vislumbrar a mensagem do filme logo nos primeiros minutos é que cada um destes atores fala a sua própria língua no filme. A obra não se enquadra, portanto, dentre as tantas outras que retratam a guerra de uma forma bizarra e distante, que procura mostrar somente um lado da história e geralmente baseando o desenrolar dos fatos em uma língua principal, deixando que o “inimigo” fale a língua estrangeira (chegando alguns ao cúmulo de sequer colocar legenda, demonstrando a idéia de desprezo que seus produtores pretendem passar para com o “outro lado”).
Assim, a história também tem vários personagens principais. Por isso mesmo, estes são apresentados um tanto quanto superficialmente. Essa visão faz parecer que, de uma certa forma, todos ali são mocinhos e bandidos, todos estão certos e errados. Não um juiz ou um vencedor. Não há nem mesmo um parâmetro, apenas... pessoas.
E é com essas pessoas, tão comuns e diferentes, que no campo de batalha acabam praticamente iguais, que a narrativa é construída. Do lado alemão, podemos admirar um tenor famoso denominado Sprink (Benno Furmann) que é convocado para servir na guerra como soldado raso. Este, ao longo do filme, como uma das cenas nos mostra (cena na qual sua mulher o visita e pretende que levá-lo de volta para casa), acaba por acreditar ser de fundamental importância na guerra. Sua mulher é Anna Sorensen (Diane Kruger), que consegue uma autorização especial para visitar o front do próprio Kiser, com a desculpa de organizar um recital. Já junto aos britânicos, temos os irmãos William (Robin Laing) e Jonathan (Steven Robertson), além do padre da igreja que frequentam, Palmer (Gary Lewis). Do lado francês, o tenente Audebert (Guillaume Canet) e o general Français (Bernard le Coq), que é oficial superior direto e também pai do primeiro.
O filme retrata uma guerra. E como tal, estamos acostumados a conceber uma trama intrincada de interesses maiores. Geralmente esquece-se que estes fatores levam a atitudes precipitadas ou pensadas, mas que acabam não só por ganhar ou perder uma guerra, mas acima de tudo a mudar a vida de pessoas. Assim, Christian Carion nos apresenta uma obra rica em mostrar aquilo que é faz com que toda e qualquer guerra aconteça: as pessoas.
Há, no filme, uma crítica imensa ao fato de os idealizadores das guerras não estarem no campo de batalha, mas seguros em seus lares. É exatamente isso que faz com que, no natal de 1914, os soldados saiam de suas trincheiras e resolvam, a despeito da guerra, confraternizar. O filme, com isso, pretende mostrar que as pessoas estavam ali simplesmente porque não puderam fazer outra escolha. Caso pudessem, teriam voltado para suas casas e para suas vidas normais. O que diretor pretende mostrar é que todos ali eram iguais e que, na verdade, não se odiavam.
A verdade é que as ideologias que estudamos são feitas por pessoas. Mas quais pessoas? Seria interessante que, mais vezes, fosse possível fazer esta reflexão. Muitas vezes, a homogeinização do estudos das guerras pode parecer didática, mas esconde outras questões que são fundamentais para entender o todo dos acontecimentos. Sabe-se que não seria interessante para um tenor estar num campo de batalha. Ele acreditava na guerra, ou apenas se sentia obrigado? Pode-se culpar um padre por estar contra ou a favor de uma guerra?
Ao confraternizarem, os personagens reais mostram que cada vez menos havia lugar para uma alienação quanto às vontades e conhecimento de seus próprios interesses e vontades. É no período que a produção retrata que grandes movimentos contestatórios estão surgindo em toda parte no que diz respeito às ideologias em voga. No entanto, ao retratar isso na película, o diretor quer informar ao público que deve-se haver cada vez menos espaço para uma caracterização tacanha de eventos que tiveram importância tão grande para que a sociedade se desenvolvesse e evoluísse nos moldes em que se encontra em nossos dias.
Fazer um tenor simplesmente se levantar de sua trincheira e cantar, segurando uma árvore de natal um tanto quanto improvisada, para um monte de gente às quais deveria odiar (ou, ao menos, querer que estivesse mortas), pode dar um certo tom cômico à cena. Contudo, é determinar que uma “orquestra” de gaitas de fole será tocada para acompanhar um suposto inimigo que torna a cena quase constrangedora de tão bela. O autor não está apenas querendo dizer que todos devem confraternizar pois o bem comum é mais importante. Nem tão pouco está querendo passar alguma mensagem natalina. É, mais que isso, uma chave que nos permite entender que todos que ali estiveram já percebiam que não tinham nada a ganhar com a guerra.
Em suma, é mais um filme interessante para discutir temas que são pouco abordados em conversas, livros ou em sala de aula. É importante que sejam discutidos os principais atores da história das grandes guerras, que não são somente os estados, os interesses comerciais, coloniais ou expansionistas: são também os interesses humanos que moldam a história. É preciso problematizar para que ambos os aspectos sejam levados em conta quando se trata de temas tão complexos, como é o caso deste filme.

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