segunda-feira, 16 de junho de 2008

HIRSCHBIEGEL, Oliver. A Queda - As últimas horas de Hitler. Alemanha, 2004. DVD, 156min. color, son.

HIRSCHBIEGEL, Oliver. A Queda - As últimas horas de Hitler. Alemanha, 2004. DVD, 156min. color, son.

O filme começa com uma sena peculiar: um grupo de jovens alemãs. Dentre eles, uma será escolhida para ser a secretária de Adolf Hitler (Bruno Ganz). Sobre o objetivo do filme, poderia ser dito que, como diz o título, é retratar os últimos dias da Segunda Grande Guerra. No entando, o filme é imensamente mais o do que isso. Esta cena inicial é de 1941. A seguir, estaremos em 1943, passando assim a narrar os últimos espasmos de um 3º Reich agonizante e de uma Alemanha já invadida, enquanto Hitler e seus aliados pessoais encontram-se dentro de um bunker. São os útimos momentos da guerra.
A história, que foi baseada em dois livros ("No Bunker de Hitler: Os Últimos Dias do 3º Reich", de Joachim Fest e "Até a Hora Final: A Última Secretária de Hitler”, de Traudl Junge e Melissa Müller) conta não a história de um assassino monstruoso, como estamos acostumados a receber a imagem de Hitler tanto no cinema quanto em nosso imaginário, mas de um homem obcecado por suas próprias ideologias. Esse, talvez, seja o grande mérito do filme: mostrar um lado que poucas pessoas se deram conta de que existe porque nossa cultura, temendo repetir erros, passa a contar o passado como faziam os monges da Idade Média, acrescentando moral no meio de cada história que era passada, sem chances do ouvinte refletir sobre o exposto.
Em nenhum momento o filme deixa de mostrar o quão cruel Adolf Hitler foi para com aqueles a quem perseguia. Contudo, o que Olivier Hirschbiegel nos traz é um Hitler capaz de demonstrar afeto, compaixão, e de despertar adimiração àqueles que acreditam em sua causa. É um Hitler que pode amar (animas e pessoas) e que acredita que suas ideologias farão do mundo um lugar melhor. É um Hitler que mata violentamente, mas que não é 24 horas um assassino. É um personagem histórico e sobretudo humano, que está tão cego por sua megalomania que usa mapas e bonecos para organizar contra-ataques com exércitos que já nem existem mais.
É realmente muito mais cômodo conceber o ditador como uma máquina de matar, assim como os nazistas como sendo um conjunto único de alienados sem caráter, sedentos por sangue. E é justamente por isso que A Queda! foi tão criticado quando se deu seu lançamento. O enredo não conta somente a história da Segunda Guerra Mundial. Relata a história de Traudl Junge (Alexandra Maria Lara), secretária do Führer, uma moça que, por ser próxima, recebe uma atenção até carinhosa de seu patrão ao longo do filme. É emblemática a cena na qual Traudl acaba por dormir mais do que deveria e, ao se dirigir pedindo desculpas a Hitler por ter se atrasado, é recebida com um gesto de compaixão de quem tinha consciência de que a guerra era um remédio amargo, ao dizer: "Conseguiu descansar um pouco?".
O filme tenta passar uma aura de imparcialidade a todo momento. Contudo, o fato de não fazer maiores referências às tropas norte-americanas, é, em si, um fato que delimita o grau de importância que, para o autor da obra, tiveram as tropas soviéticas, o que não tira o mérito do conjunto.
Outro ponto importante abordado é a população. O filme vai mostrar um povo que está em grande parte unido e disposto a todos os sacrifícios para que o Reich atinja suas metas e seja vencedor. Quando os pequenos simpatizantes do regime nazista, mergulhados na atmosfera que envolvia a todos dentro da Alemanha, resolvem pegar em armas, a idéia de que não são andróides assassinos lutando, mas pessoas que podem ter sido fiéis às suas crenças, apenas terem se deixado levar por promessas que não chegaram a compreender muito bem, ou até mesmo não tiveram oportunidade para decidir coisa alguma. Afinal de contas, Hitler era extremamente carismático, capaz de fazer multidões se atirarem à morte por ideais e esperanças tão absurdas.
Na mesma linha de cegueira, temos um Goebels que não desiste, e um Adolf Hitler que, até os últimos segundos, acreditou que poderia reverter o quadro geral da tomada de Berlim. Magda Goebbels (Corinna Harfouch) é capaz de envenenar seus próprios filhos pois acredita que eles não suportariam viver em um mundo sem o nazismo. Enquanto alguns soldados querem fugir, outros querem lutar até o fim. Assim, temos pessoas que lutam contra pessoas em uma guerra tenebrosa que aniquilou milhões de almas e foi fruto da intolerância de parte a parte.
Uma obra como esta só pode acrescentar aspectos positivos, tanto ao cinema quanto à História, ao trazer à luz debates com os quais o grande público não está acostumado a se deparar. A violência no filme é um fator que mostra a realidade, enquanto a humanidade de Hitler, apesar de toda a sua sede por poder e de toda a violência que causou, é mais que real. Entender todos os traços que caracterizam um personagem histórico como esse é obviamente muito mais construtivo para as pessoas que assistem ao filme, mas também é construtivo quando traz à discussão um tema tão controverso e que não deve, jamais, ser reduzido a um simples movimento intelectual estereotipado e medíocre.

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