segunda-feira, 30 de junho de 2008

Resenha sobre o livro: CONRAD, Joseph. O Coração das Trevas.

Resenha sobre o livro

CONRAD, Joseph. O Coração das Trevas. São Paulo, Martin Claret, 2006.

O livro intitulado “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad, é uma leitura interessante e que agrega muito por uma série de fatores. Em primeiro lugar, está repleta de simbologias, que podem passar despercebidas por um leitor menos atento. Como fundamento para estudo Histórico pode-se afirmar que este livro não se enquadra, se não para compreendermos o significado de algumas questões teóricas sobre nossos tempos atuais. Digo que não se enquadra por se tratar de um romance e, como tal, não poder ser usado para estudo de História. Contudo, um olhar crítico sobre estas páginas vai nos revelar a visão de um autor sobre sua época, sobre a interpretação de mundo dele – que não poderia estar descolada das outras interpretações, de seus contemporâneos. Em segundo, essa visão encontra ecos até os dias atuais e isso é uma brecha para abordamos questões tão importantes como Colonialismo ou Orientalismo.
O livro inicia-se com um iate de cruzeiro, de nome Nellie, navegando o Tamisa, que é obrigado a ancorar para esperar a maré vazante. Os personagens vão sendo mais ou menos colocados, como peças em um jogo, mas não são realmente usados. à exceção do narrador. Este é também o personagem principal, que vive as aventuras no continente distante e inóspito. A princípio não sabe-se nada dele, mas ele vai se apresentando aos pouco.
Seu nome é Marlow. Ele é um experiente navegador. Logo no início, o narrador vai traçando o perfil daquilo que vê e de como as coisas ao alcance da vista estão sendo filtradas em razão das experiências vividas no passado. E é justamente uma dessas experiências que ele passa a contar, enquanto todos naquele iate de cruzeiro esperam a vazante.
A história é a respeito de um europeu típico de sua época. Queria conhecer o mundo e, como ele mesmo conta, na infância o mundo parecia suficientemente inexplorado para que desejasse isso. Ficava olhando os mapas e, quando via um ponto não conhecido, colocava seu dedo sobre ele e dizia que, quando crescesse, iria até lá. É um retrato tipicamente romantizado do europeu conquistador por natureza, que desde a mais tenra idade já se descobre com vocação exploradora. Já adulto, como Marlow mesmo afirma, o mundo não é tão inexplorado assim. Contudo, um de seus grandes fetiches desde a juventude – um grande rio africano – reaparece em seu caminho agora, justamente quando está em busca de um emprego que conseguiu graças a ligações sociais importantes de sua tia. Ele mesmo diz que nunca gostou de usar “desses métodos” para conquistar o que deseja, mas que, como não era possível chegar onde queria com seus próprios esforços, se viu obrigado a tanto. Consegue, com isso, uma “entrevista”. Nessa companhia, uma sociedade comercial, Marlow vê na parede o tão sonhado rio, que era marcado em um mapa com a cor amarela. “Uma zona morta”, nos informa, que há muito tinha sido preenchida com nomes, rios e lagos, numa clara indicação de que a região já havia sido explorada e devidamente catalogada.
Assim, devidamente aceito graças aos contatos de sua tia, o personagem principal começa sua jornada de aventura em busca do desconhecido, ao menos para ele. Recebe um barco a vapor, ao qual se agarrará como se fosse um deus tecnológico ao longo de sua jornada. O barco, em si, também é uma alegoria. Como Marlow passa a viver em um local que em tudo o remete aos primórdios da humanidade, onde tudo era desconhecido e o medo era o companheiro inseparável da coragem que se precisava ter para sobreviver, a embarcação significa o resto de civilidade que ele era capaz de reconhecer. Nem as casas, as ruas de terra mal conservadas ou os utensílios escapavam de uma deformidade em função da coexistência com o passado. Sem o barco estaria perdido. Sem o vapor – a tecnologia – seria impossível a sobrevivência; aparentemente é a única coisa capaz de transpor as barreiras e levar o homem ao seu destino: o inexplorado.
O autor passa boa parte da obra descrevendo a natureza e seus contrastes. Tudo é analisado em função da relação que esta tem com as coisas da civilização. Os contrates geralmente se dão entre claro e escuro (um reforço à idéia por trás do título), mas também entre o presente e o passado. É interessante, agora, analisarmos o título que recebe o livro. O Coração das Trevas tem um duplo significado. Em primeiro lugar, refere-se ao lugar na África onde Marlow encontra-se na aventura. Lá está o centro – o coração – de um lugar que está há séculos de sua época. A utilização da palavra “trevas” remete a Era das Trevas, uma época há muito passada mas que em alguns muitos lugares do mundo ainda parecia coexistir com o tempo presente.
O segundo sentido está na definição do conceito de Orientalismo, apresentada por Edward Said em seu texto de mesmo nome. O coração representa a humanidade – as pessoas nativas - que existe por trás de uma atmosfera feroz e hostil. Logo no início, o narrador nos diz que Marlow não era uma pessoa típica, seu entendimento das coisas não estava inserido dentro, mas também fora dos acontecimentos. Assim, conseguia compreender as coisas com mais clareza que seus contemporâneos. E isso é dito de forma clara para demonstrar que apesar de viver nessa época, não entendia alguns valores que circulavam então. Assim é que, mesmo no mais remoto lugar em que já estivera, não consegue ver os negros escravizados simplesmente como animais. A princípio, animais e africanos são confundíveis, mas isso cessa ao pisar em terra firme. Ali, vai em vários momentos se referir enfaticamente aos escravos como homens, num claro juízo de valor sobre o tratamento que recebem, sem nenhum tipo de direito de defesa.
Digo que Said se enquadra nesta análise por um motivo muito claro. O choque de civilizações provocado por essa aventura é bastante óbvio. Não só por ela, certamente: toda a expedição afim de explorar riquezas naquele continente está inserida num contexto de invasão, de intromissão. A floresta a todo tempo, como nos narra Marlow, parece querer os engolir. Tudo é sombrio, sinistro. Os nativos são parte dessa natureza e, como tal, segundo visão colonialista, também são passíveis de exploração. E essa exploração só é possível graças à estranheza com que podem ser vistos estes habitantes tão diferentes do povo europeu. O olhar sobre o outro é uma marca de todas as épocas e aqui é uma ferramenta clara de justificativa quando se trata de simplesmente confundir os homens explorados com a selva e suas fortunas em marfim.
Todo o contexto tem grandes doses de loucura, uma loucura engraçada, que a princípio são homeopáticas. “Não entendia porque nos comportávamos como lunáticos”, vai dizer o autor à certa altura. A loucura chega aos poucos, conforme a viagem vai se desenrolando. Marlow está agora em busca do Sr. Kurtz, que é descrito como um grande homem, mas que também parece ocupar sua posição de prestígio graças, assim como o personagem principal, aos seus contatos na Europa. A alegoria nos mostra um homem a frente de todos os outros, mas que foi incapaz de equilibrar coragem com prudência e agora, doente, está há muitos quilômetros de contato com a pequena aldeia em que Marlow se encontrava.
Assim, o deus de metal segue o curso do rio até Kurtz. No caminho, são atacados por nativos, embora dentro da embarcação também houvesse nativos, sendo estes últimos “civilizados”. Na verdade, estes foram adestrados, como o narrador nos conta. Entendem o motor a vapor com um demônio aprisionado, que caso não fosse alimentado procuraria vingança; e assim, apesar de se dizer tão diferente dos outros, o autor mesmo passa a idéia de que Marlow, no fundo, também compreendia os africanos como incapazes, canibais que só entendem sua própria língua e pensamento. Se algo de útil tem de lhes ser ensinado (embora útil apenas para os colonizadores) tem que ser de forma fantasiosa, onírica, pois era a única forma que entendiam.
Para além da questão civilizatória, já explicada, outra questão muito importante presente no livro é sobre o texto “Tudo que é sólido desmancha no ar”, de Berman Marshal. A modernidade é uma armadilha de onde os homens não podem mais sair. É impossível para um europeu como Marlow sobrevier sem seu vapor. E, por isso, é preciso levar civilização – entendida muitas vezes como uma “exploração construtiva” a partir do momento que leva a civilização aos não civilizados, lhes ensina um ofício – mesmo que dele não tirem proveito algum a não ser uma suposta elevação enquanto ser humano. É o discurso desdobrado a partir do Iluminismo: é preciso levar a luz onde houver trevas, que os países colonizadores levaram até as últimas conseqüências. Marlow é, ainda, o jovem herói Saint-Preux realizando seu movimento exploratório do campo para a cidade.
Para concluir, é preciso reforçar o que foi dito no início. O livro em sai não pode ser fonte de estudo Histórico, no sentido factual, uma vez que é um romance. Entendido isso, mostra sem dúvida o conhecimento de Joseph Conrad acerca de temas tão importantes para nossos dias, e que foram vividos por ele em seu auge, durante o século XIX. O personagem principal está cumprindo uma função iluminada, saciando uma vontade inata e ajudando o leitor a compreender o mundo com outros olhos. Apesar disso, é um homem de seu meio e o choque de civilização que ele sofre ao chegar ao Coração das Trevas é aquele que seria sentido por qualquer europeu que percorresse os destinos de uma jornada em busca de algo que nem ele mesmo sabia o que era, mas que no final acaba por justificar a busca com um sentido mais nobre, e até mais humano. A mentira final é a mentira que conta-se para justificar a exploração, a miséria de nossos tempos, e a justificativa para ela. O personagem principal não faz parte da história de Kurtz e da fotógrafa, mas entrou nela sem querer, como qualquer um de nós na alegoria de nossos tempos, tão apavorante quanto a selva enfrentada na história. Ainda assim, ao final de toda história particular, a modernidade segue seu curso, parecendo conduzir “ao coração de imensas trevas”.
Bibliografia

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. “Introdução: Modernidade – ontem, hoje, amanhã”. São Paulo, Companhia das Letras, 2007.
SAID, Edward. Orientalismo. São Paulo, Companhia das Letras. Introdução.
HOBSBAWM, Eric. A era dos impérios. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988. Introdução.

Nenhum comentário: